quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Eduardo Campos e a Sul-Americana



O endereço do blog existe há bastante tempo. Outras prioridades sempre adiaram sua estreia. Lamento iniciar este espaço tendo como mote a morte de alguém. Ainda mais alguém ainda jovem, com um futuro aberto à frente e que poderia fazer a diferença para ao sua comunidade, o seu país. Não vou entrar no mérito de se faria ou não esta diferença, a morte, muitas vezes, distorce as perspectivas. O que quero debater aqui é que os desdobramentos da morte de Eduardo Campos escancaram mais uma vez a falência dos nossos sistemas: político, social, moral.
Não estou me referindo, exclusivamente, às manifestações incivilizadas das redes sociais. Mas, principalmente a algumas análises na mídia tradicional, e manifestações no meio político, que deixam entrever sinais de uma forma de pensar que parece estar se transformando no senso comum entre nós.
Parece haver um consenso de que Marina Silva deva ser a substituta de Eduardo Campos, até aqui nada mais lógico e natural, como adepto de eu os fatos devem ser analisados desapaixonadamente, até entendo que se parta para esta discussão menos de 24 horas após a queda do avião. Afinal, a vida continua, a eleição está ali na esquina. O que me incomoda é que parece haver um consenso de que ela e o PSB devem aproveitar oportunidade e surfar na onda da comoção, usando o corpo de Campos como prancha, sem pensar, nem discutir muito. (Desculpem a insensibilidade da figura de linguagem). Mais do que isso, nas entrelinhas, ou mesmo explicitamente, críticas a qualquer prurido moral ou ético por parte da candidata.
Acredito que a discussão é mais complexa do que aparenta, e elenco, a seguir, algumas considerações que me fazem ficar preocupado com a generalização daquele tal pensamento, mencionado acima, e por que a morte de Campos escancara a falência do sistema.

  1. A simplificação e o reducionismo que colocam o eleitor indeciso ou do voto branco ou nulo automaticamente como eleitor de Marina. Como se ela fizesse apenas figuração na chapa do PSB, ou como um indivíduo desprovido de qualquer vontade, ideia ou pensamento próprio, sendo carregado pela emoção e comoção pública. (embora com os muitos estudos sobre o comportamento das massas, não se possa dizer que esta última ideia esteja de todo errada). 
  2. Marina Silva aceitará a missão e adiará o projeto da Rede para governar segundo o projeto do PSB, dará as costas ao partido que a ajudou a se eleger e criará a Rede mesmo assim, ou governará tendo o próprio partido como oposição. 
  3. A morte de Campos escancara, mais uma vez, a falta de lógica, convicção, ética, moralidade e bom senso que regem as coligações partidárias no Brasil. O PSB, que desembarcou do governo, por que queria deixar de ser coadjuvante e apresentar o seu projeto ao país, terá que optar se escolhe Marina para chegar ao poder, mesmo correndo o risco de ao chegar lá ela retome o projeto da Rede e o PSB volte a ser coadjuvante, com um eventual bom governo de Marina adiando ainda mais os planos, ou um eventual mau governo sepultando estes planos. Ou escolhe um nome com menores possibilidades de vitória, preservando o plano original para à próxima eleição? Resumindo disputa a Copa do Brasil ou escolhe a Sul-Americana? 
Eis que surge o tal pensamento e explicamos o que raios a Sul-Americana veio fazer num texto sobre a morte de Eduardo Campos. Pois o tal pensamento foi verbalizado pelo diretor de futebol do Sport Club Internacional ao justificar a tese: “Na Sul-Americana sim, o Internacional entrará com toda a seriedade.” Pois esse é o pensamento que, assustadoramente, parece se tornar o pensamento médio ou o padrão da nossa sociedade. A ideia de que se pode relativizar a seriedade com que se lida com a coisa pública. 
Sim, o Inter é uma entidade de direito privado, mas não deixa de ser público (seus torcedores e sócios) cobrar impostos (mensalidade) e deveria entregar uma gestão e um serviço de qualidade, seriedade e comprometimento. Seus dirigentes, assim como qualquer gestor público deveriam saber que não dá para ligar ou desligar a seriedade de acordo com as suas conveniências. A seriedade tem que estar sempre presente, desde o momento em que acomodam suas bundas gordas nas macias almofadas de couro vermelho (ou da que cor seja) de suas cadeiras. 
Este é o pensamento que talvez explique os 7 x 1, os mensalões e outras mazelas que assolam este país. Só nos resta dar os parabéns aos desqualificados que (des)classificaram o Inter para a sul-americana, desejar boa sorte e bom senso ao PSB e Marina Silva nas decisões que precisam tomar e lamentar a morte de Eduardo Campos e, possivelmente, de uma oportunidade de mudanças.

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