Dois garotos no trem Minuano, cruzando campos e coxilhas, vão sonhando com soldadinhos de chumbo, carrinhos de lata. Banho de sanga, frutas no pé, tirar leite da vaca. O borrão verde-castanho, que passa ligeiro pela janela, lembra o olhar fugidio da morena de tranças da escola primária.
Um vem de Porto Alegre para visitar os tios, o outro de Passo Fundo para ver os bisavós. Na velha linha Santa Maria - Marcelino Ramos, por Cruz Alta e Passo Fundo, do saudoso Minuano, a pequena São Miguel é o destino comum. Terão eles se cruzado na plataforma da estação em um dia desses qualquer, trocado olhares cúmplices, reconhecendo-se como iguais, aventureiros da ferrovia no norte, desbravadores das campinas do planalto, domadores do gado selvagem que escapou dos campos da Vacaria?
Teriam eles se encantado com o pequeno show do chefe da estação, com seu arco de vime estendido, com as informações de controle, para ser apanhado pelo braço ágil do maquinista? Com a sinfonia de sino e apito que marcava chegadas e saídas? Teriam trocado ideias, jogado bola, girado pião, brincado de pique-esconde no pátio da estação? Quem sabe?
Os dois meninos no trem Minuano, hoje são homens que dividem lembranças de uma mesma época, de um mesmo lugar, talvez sem nunca terem se encontrado. Mas compartilham emoções, sentimentos e memórias. Pedro e Sérgio, os dois meninos no Minuano.
Pedro é meu tio, que (d)escreveu aqui suas saudades/memórias/sentimentos em versos que lembraram o Minuano, São Miguel e tantas coisas. Sérgio, o amigo de uma amiga, leu os versos e reviveu suas próprias saudades/memórias/sentimentos. Novamente, o velho trem Minuano cumpriu seu papel, e os transportou à São Miguel de suas infâncias. Mesmo que nunca tenham se encontrado, dividiram mais uma vez um encantamento, uma alegria, tão fáceis e presentes quando somos crianças, que parecem perdidos quando adultos, mas que estão apenas adormecidos, prontos para despertar ao apito de um trem, um perfume de bolo saído do forno ou a leitura de palavras escritas com o coração.
Não há mais trem Minuano. Mas, enquanto houver palavras para descrever sentimentos, homens com espírito livre e coração puro para escrevê-las e homens com espírito livre e coração puro para as ler e sentir, a passagem por este mundo ainda valerá a pena.
Valeu, Francisco! Teu belo texto deu mais asas à memória dos idos tempos do guri, que contava os dias para a chegada das férias escolares para poder tomar trens e ônibus (que naquela época cruzava vindimas e passava por balsas) para desfrutar da vida mais simples de cidades do interior do estado e, com os primos, percorrer campos, matas e sangas. Coisas que jamais esqueceremos enquanto houver quem escreva como você. Grande abraço.
ResponderExcluirLindo texto, Chico! Não conheço Sérgio, mas envio-lhe um abraço, pela convergência de lembranças que nos remetem a um tempo que, sempre me pareceu, mais doce e mais feliz....
ResponderExcluirEu que agradeço aos dois pela inspiração. Pela lembrança da importância que coisas simples e belas tem em nossas vidas. Por demonstrarem algo que sempre me encanta: a capacidade das palavras, de um texto, despertar sentimentos, criar emoções resgatar e preservar memórias, fazer diferença na vida das pessoas. O espaço é aberto, sempre que quiserem compartilhar memórias se aprocheguem, a chaleira está sempre no fogo, a erva sempre fresca e o vivente sempre disposto a um dedo ou dois de prosa. Aliás, Pedrão, o versos do Saudosismo fizeram sucesso, não só com o Sérgio. Pelas estatísticas do blogue, dos 19 textos publicados, já é o 4° mais lido, e subindo na tabela. Abraços aos dois.
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