domingo, 7 de setembro de 2014

A longa viagem do rabo do cachorro....

Parte do título tem inspiração no livro A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, da Historiadora Lilian Schwarcz, que conta, a partir dos eventos da transferência da Real Biblioteca de Portugal para o Brasil, acompanhando a Família Real em sua fuga de Napoleão, fatos fundamentais da história brasileira. Recomendo a leitura. Me apropriei de parte do título porque ilustra, de certa forma, os eventos atuais e a dificuldade do país, da sociedade, em empreender a longa viagem de volta, da colônia para a metrópole, da barbárie para a civilização.

Para não me alongar muito, fiquemos no episódio de racismo envolvendo a torcida do Grêmio. Muitos entendem como exagerada e até mesmo injusta a punição aplicada ao Grêmio e, também muitos, contestam a própria definição do ato como racismo. Os argumentos são os mais variados. Vão desde um singelo sempre foi assim nos estádios, defendendo um status quo alérgico a qualquer mudança ou tentativa de se atingir uma menor desigualdade; até teses mirabolantes e indignadas por alguém que ganha, provavelmente, mais de 100 mil reais por mês, ter a ousadia de protestar e tirar a alegria do "povo" humilde que frequenta os estádios.

Embora o esporte em geral, e o futebol em particular, apresentem grandes semelhanças com o sistema escravocrata (onde mais pessoas são vendidas, compradas e trocadas?) e antes que você proteste dizendo que eles ganham muito bem por isso, devo dizer que tem muita gente que também ganha, e até mais, sem contribuir em nada (sim, você vai dizer que eles ganham roupa, comida, instrumentos de trabalho e um lugarzinho na senzala, ops, alojamento, embaixo das arquibancadas) simplesmente explorando o talento e o trabalho alheio. Sem falar no novo nome dos estádios: Arenas, onde, também, escravos eram usados para divertir a população.

Mas, voltando ao parágrafo anterior, ganhar 100 mil mensais não implica (pelo menos eu acho, não li o contrato do goleiro Aranha) em aceitar, mansamente, ter sua dignidade achincalhada. E quanto ao "povo", este foi expulso dos estádios muito antes de virarem arenas, com o fim das "coréias" e com o preço dos ingressos "populares" nas alturas ou significando ficar em guetos, na pior parte do estádio.
Além dessas, temos também a tese do racismo inconsciente ou superficial, onde tudo é uma brincadeira ou apenas uma jocosa e inocente manifestação de carinho.

Assim vai a nau brasileira em sua longa viagem em busca da civilização, da modernidade.

O que raios o rabo do pobre do cachorro tem a ver com isso? É que, como o cão que persegue o próprio rabo, a nau brasileira se desloca em círculos, a cada avanço de alguns metros, corresponde um retrocesso de outros vários metros. Talvez quilômetros. 

Senhores passageiros, aproveitem a brisa marinha, estiquem as pernas no convés, ainda temos uma longa viagem pela frente!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários e opiniões serão sempre bem-vindos, desde que com educação e respeito.

Leguisamo solo...

Uma das melhores coisas da internet é a possibilidade de se ouvir rádios de todo o mundo. Um dos meus passatempos prediletos, ouvir o...