segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A moça do tempo fala Roráima. E daí?

Não é de hoje. Pelo menos desde 2011 a Globo vem nesta cruzada de tentar implementar um regionalismo como valor universal. É a Globo sendo Globo. Fiel às origens no autoritarismo e a sua aversão figadal às diferenças. Já esclarecendo de antemão que não há nada de errado com Roráima. Nem com Rorãima.
Temos aqui um caso do campo da prosódia. Senhora da família Gramática, que se dedica às características da emissão dos sons da fala, como o acento e a entonação. Ou, abusando da livre interpretação: do bom e velho sotaque. 
Como sabemos o pessoal do norte e nordeste tem uma tendência a abertura das vogais pretônicas. Acontece que o português brasileiro sempre teve uma forte tendência à nasalização dos ditongos seguidos de m ou n. Assim, em quase todo o Brasil, fala-se andaime ('andãime') e não andáime, paina ('pãina') e não páina,  polaina ('polãina') e não poláina, plaina ('plãina') e não pláina, Elaine ('Elãine') e não Eláine, Jaime (Jãime) e não Jáime. Ao contrário dos nossos queridos portugueses, que preferem andáime e Jáime.
Mas, o  que dizem os dicionários? O Houaiss "tucaneia" e não se define sobre o assunto. Apenas registra que até o início do século 20 a pronúncia ainda alternava entre Rorãima, Roráima e, acredite, Roraíma, sim, com a tônica no i. Já o Aurélio toma partido e no verbete roraimense, indica a pronúncia (ãi).
Também não podemos ignorar a posição do respeitável filólogo Evanildo Bechara, para quem a presença de m ou n na sílaba seguinte pode ou não nasalar as vogais anteriores.
Então, qual o problema da moça do tempo (e quase todo mundo no jornalismo da Globo) falar
Roráima? Nenhum. A Globo pode ter decidido consultar um filólogo lusitano ou apenas prestigiar a fala regional. O problema é que já ouvi muita gente boa bater no peito e louvar o pessoal da Globo, que "estes sim falam certo". Seja por fatores, regionais, culturais ou educacionais, a variação prosódica é fato em qualquer língua.
O incômodo está no escrito lá em cima, a preferência do jornalismo da Globo em achatar ou eliminar diferenças, a diversidade de ideias, crenças ou falares. E que encontra eco numa cultura do tempo do Brasil colônia e numa baixa auto-estima atávica de boa parte da população (em especial da classe média) que precisa de confirmação e corroboração para o que sente, pensa ou fala.
Moral da história: se você quiser falar Rorãima, Roráima ou mesmo ressuscitar o Roraíma, fique á vontade. Para desespero dos ditadores da língua, que faz o idioma são os falantes. Ele vem de baixo para cima e não o contrário. 

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